Percorrer os caminhos propostos pela biblioteca do Estudio Tupi é experimentar, em corpo e mente, uma epifania. Se o traçado retilíneo dos corredores, com nichos para estudo de um lado e estantes do outro, sugere um trajeto linear, a disposição de obras de diferentes épocas e áreas, organizadas alfabeticamente pelo sobrenome de seus autores – e não por campos do saber –, proporciona ao visitante uma miríade de associações, ideias, referências, memórias.
Deparar-se com uma seleção tão singular e preciosa do conhecimento humano, apresentado em rede e organizado por círculos de interesse, promove uma imediata expansão da consciência. No trecho destinado à letra C, por exemplo, colocam-se na mesma dimensão autores como o concretista Augusto de Campos, a compositora Wendy Carlos (autora da trilha sonora de Laranja Mecânica, filme distópico de Stanley Kubrick) e o surrealista Jean Cocteau. Na porção dedicada ao F, romances do americano Jonathan Franzen repousam logo abaixo das produções de Sigmund Freud, pai da psicanálise. Engana-se quem pensa estar diante de um espaço dedicado a disciplinas como arquitetura, estética e literatura – ainda que essa seja a descrição formal da proposta. O que vem se consolidando no inédito endereço paulistano é uma maneira horizontal de percorrer uma crescente amostra multidisciplinar registrada em papel. “Esse sonho começou quando eu e a Déa ainda morávamos na Inglaterra, frequentando a biblioteca de Oxford em meio aos nossos doutorados, e começamos a reunir livros e mais livros que nos pareciam essenciais”, revela o arquiteto Aldo Urbinati, marido da também arquiteta Andrea Vosgueritchian, de quem é sócio no Estudio Tupi. O plano tomou corpo e ganhou viabilidade tempos depois, quando a coleção alcançou 8 mil exemplares e um galpão nos arredores do antigo escritório, já estabelecido em São Paulo, ficou disponível.
Realizada há dois anos, a reforma materializou outro projeto de vida do casal, com os pés fincados no presente e os olhos voltados para o futuro. O redesenho do velho depósito de frutas estabeleceu uma organização em dois patamares. Embaixo, funcionaria a sede do estúdio de arquitetura, pródigo pelas intervenções em edificações icônicas do modernismo brasileiro, marcado pela prática singular que combina as expertises de um filho da região amazônica e uma descendente de sírios. No andar superior, dedicado à biblioteca, a disposição dos livros (fotos, gravuras, alguns quadros e objetos de design assinado também) se daria em suportes compatíveis com a escala humana, em casulos, estantes e balcões afeitos ao manuseio, favorecendo a experimentação tátil das obras.
A iluminação foi decisiva para imprimir a atmosfera sublime no espaço, que não dispõe de janelas nas laterais. Confiado ao arquiteto e lighting designer Carlos Fortes, o projeto luminotécnico incorporou recursos valiosos. A temperatura de cor das lâmpadas e demais equipamentos luminosos simula a variação da insolação natural ao longo do dia (vai de quente a fria e depois a quente novamente). “Também é possível acender e apagar cada uma das ‘capelas’ sequencialmente, reproduzindo o ritmo do fortnight”, explica Andrea. Há ainda cenas programadas para momentos especiais, como festas e eventos – ocasiões que devem acontecer com cada vez mais frequência no escritório-biblioteca.


